Imposto de renda nos EUA: os erros mais comuns entre brasileiros

Um dos equívocos mais comuns entre brasileiros nos Estados Unidos não é pagar imposto — é não entender como o sistema funciona. O resultado costuma ser um destes dois: pagar mais do que deveria, ou descobrir tarde demais uma obrigação que não foi cumprida.
Depois de acompanhar de perto as dúvidas mais recorrentes de brasileiros vivendo ou investindo nos EUA, reuni os pontos que, na prática, fazem diferença.
Residência fiscal não é a mesma coisa que green card.
Este é o primeiro ponto de confusão. Muitos assumem que a obrigação de declarar existe apenas para quem tem green card. Não é o caso. O IRS utiliza o chamado “teste de presença substancial”: dependendo do tempo de permanência nos EUA, mesmo com visto de trabalho, uma pessoa pode ser considerada residente fiscal — e, nesse caso, passa a ter a obrigação de declarar sua renda global, incluindo aluguéis, dividendos e demais rendimentos originados no Brasil.
Quem não se enquadra como residente fiscal é tributado apenas sobre a renda gerada dentro dos Estados Unidos, sob regras distintas.
A declaração referente ao ano-fiscal de 2025 é a que está sendo apresentada agora, com prazo em 15 de abril de 2026. Após a aprovação da One Big Beautiful Bill Act, em julho de 2025, a dedução padrão para 2025 ficou em $15.750 para declarantes solteiros e $31.500 para casais que declaram em conjunto (valores acima do inicialmente previsto pela correção inflacionária).
As faixas do imposto de renda federal para 2025 (declarante solteiro) são:
• 10% até $11.925
• 12% de $11.925 a $48.475
• 22% de $48.475 a $103.350
• 24% de $103.350 a $197.300
• 32% de $197.300 a $250.525
• 35% de $250.525 a $626.350
• 37% acima de $626.350
Para o ano-fiscal de 2026 (declaração a ser apresentada em 2027), a dedução padrão já está definida em $16.100 para solteiros e $32.200 para casais em conjunto — um dado relevante para quem já está organizando o planejamento do ano corrente.
Vale reforçar: por se tratar de um sistema de alíquotas progressivas, cada faixa incide apenas sobre a fatia de renda correspondente — não sobre o total. Esse é um ponto frequentemente mal compreendido e que leva contribuintes a superestimar o valor devido.
FBAR: uma obrigação frequentemente esquecida
Residentes fiscais que possuem contas no Brasil com saldo total superior a $10 mil em qualquer momento do ano precisam apresentar um relatório específico, separado da declaração de imposto de renda: o FBAR. Não se trata de um imposto adicional, mas de uma exigência de transparência sobre contas no exterior. A omissão desse relatório está sujeita a multas significativas.
O impacto vai além do financeiro
Deixar de declarar não gera apenas consequências fiscais. Pode afetar também o status migratório, incluindo processos de renovação de green card. As implicações, portanto, não se limitam ao IRS — envolvem também o USCIS.
Dois pontos que merecem atenção especial
- O acordo entre Brasil e Estados Unidos permite evitar a dupla tributação sobre a mesma renda, compensando o imposto pago em um país com o devido no outro. É um mecanismo pouco conhecido, mas relevante para quem mantém rendimentos nos dois países, e depende de um planejamento tributário bem construído.
- Ganhos de capital de longo prazo (ativos mantidos por mais de um ano) são tributados a alíquotas significativamente menores do que ganhos de curto prazo. Ignorar essa diferença ao vender ações ou imóveis pode representar uma carga tributária desnecessariamente alta.
Em resumo
O sistema tributário americano tem, de fato, uma complexidade própria — não é produtivo minimizar isso. Mas grande parte dos problemas pode ser evitada com informação básica: entender sua condição de residência fiscal, manter a documentação organizada (W-2, 1099, comprovantes de deduções) e não deixar a organização para os últimos dias antes do prazo.
Para situações com camadas adicionais — negócio próprio, investimentos, planejamento de aposentadoria — a orientação de um contador especializado em tributação internacional costuma valer o investimento.
Entender essas obrigações não deveria ser um obstáculo para quem está construindo uma vida nos Estados Unidos, ou para quem tem investimentos ou realiza negócios no país. É, antes de tudo, uma questão de planejamento.
